Pessoa

Oii :)

Aiaiaiaiai, aproveitei esse tempo de friozinho pra tomar um chá de sumiço?!

:(

Infelizmente, daquele bem grande e dolorido, meus últimos dias tem sido tão insanos, consumido não apenas o meu tempo, mas também minha a energia física e mental. Ainda bem que no fim é tudo para o bem. Isso torna minha dor em não postar menor, em torno de 0,0000000000001% menor, rs.

Maaaas, mesmo em meio ao caos, aproveitei  o sossego de um desses finais de semana delícia de inverno para por os pézinhos para fora de casa. Tomar um café da manhã no meu cantinho favorito (aqui),  ir ao cinema e assistir uma obra prima, experimentar novos sabores na Augusta (♥), tornam os meus sábados incrivelmente especiais.

E nesse clima de preguiça/cultura, eis que ao me sentar entre os disputados espacinhos da Livraria Cultura, Fernando Pessoa me iluminou com suas palavras. Nunca antes eu tinha me atrevido a pegar um livro dele e ler sem hora, sem pressa. E que surpresa maravilhosa.

Em meio a tantas palavras, o “Poema Em Linha Reta” veio ao meu encontro. Direto, limpo, como uma avalanche avassaladora de letras soltas que dentro de mim encontraram uma sintonia perfeita. Para muitas pessoas esse poema não é novidade, assim como novidade não são as verdades que ali contém. Como um poema de 70 anos pode se encaixar tanto em nosso aqui e agora? Seria por quê o ser humano evolui em partes? Somos essencialmente os mesmos?

Com essa nova vida virtual, nunca antes compartilhar os sentimentos, mesmo que de terceiros como uma forma de isentar-se da exposição, foi tão usual ao novo mantra de felicidade pessoal. As vezes conversando com outros amigos, chego a conclusão que inocentemente a gente diz que não se incomoda. Se incomoda sim, quem nunca se sentiu anormal dentro dessa obrigatoriedade de ser feliz e bem sucedido em sua vida como um todo?

Um suspiro e um VIVA bem forte.

Eu sou normal e felizmente cheia de pequenos momentos infelizes que intensificam o sabor da felicidade de estar viva – aqui dentro de mim.

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Poema Em Linha Reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fernando Pessoa – 1944

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Bj,

Tutu

 

 

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